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domingo, 12 de dezembro de 2010

O inicio da jornada de Bloom

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  1

Não falaremos do rochedo sagrado
onde a cidade de Jerusalém foi construída,
nem da pedra mais respeitada da antiga Grécia
situada em Delfos, no monte Parnaso,
esse Omphalus - umbigo do mundo -
para onde deves dirigir o olhar,
por vezes os passos,
sempre o pensamento.

  2

Não falaremos do Três Vezes Hermes
nem do modo como em ouro se transforma
o que não tem valor
-apenas devido à paciência,
à crença e as falsas narrativas.
Falaremos de Bloom
e de sua viagem à Índia.
Um homem que partiu de Lisboa.
...


Abaixo, o curta de Emanuel Madalena inspirado no livro Sr.Válery que faz parte da série "O Bairro".

domingo, 28 de novembro de 2010

Uma Viagem à Índia - Gonçalo Tavares

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O novo livro de Gonçalo M.Tavares, autor da tetralogia intitulada O Reino (Jerusalem, Aprender a rezar na Era da Técnica, Um Homem:Klaus Klum e A Máquina de Joseph Walser) será lançado no Brasil em dezembro. Uma Viagem à India vem sendo considerada a obra-pirma do autor. Segundo Gonçalo, trata-se de uma "epopéia" escrita em versos com proximidade amororsa a Lusíadas de Camões "já que qualquer escritor tem de ter a noção de que não é a primeira carroça, antes deles muitos já escreveram coisas maravilhosas, mas também que não é a última e portanto deve deixar algo para os outros".

Sinopse:
A primeira epopéia portuguesa do século XXI

Imagine uma aventura da mesma magnitude de Os Lusíadas, mas que fosse escrita hoje. Um homem que faz uma viagem à Índia, tentando aprender e esquecer no mesmo movimento, traçando um itinerário de uma certa melancolia contemporânea.

Lançamento previsto para 02/12.

  

           Leio no Canto VII de Uma viagem à Índia, magnífico poema de Gonçalo M. Tavares que a jornalista e amiga Isabel Coutinho me trouxe de Lisboa: "Os homens, de facto, rapidamente desistem de acreditar em aparições, o que é um erro, pensa Bloom". Leio a primeira edição do imenso poema, recém lançada pela Caminho Editorial. Leio e paro. Estou na página 292 _ o livro tem 456 páginas, isso sem contar o itinerário final da Melancolia Contemporânea. Estou só no meio do caminho.

          Releio a frase, abrigada no capítulo 9 do Canto VII: "Os homens rapidamente desistem de acreditar em aparições". Recodo, de repente, numa súbita aparição, que Vinicius de Moraes acreditava em fantasmas. Pouco depois da morte de Antonio Maria, em 1964, viu-o encarnado em pássaro, gordo e vacilante, que sobrevoava o chalé de Visconde de Mauá onde estava hospedado. Psicografou, ali mesmo, uma conversa com Maria. Falaram de dentro para dentro. Eis o poeta.

          Vinicius acreditava em duendes _ e incluía o cantor João Gilberto nessa categoria. Acreditava nos místicos: por exemplo, Jayme Ovalle. Acreditava em quase tudo, por que não em fantasmas? E os temia. Um dia, caminhando por uma rua de Munique, Alemanha, achou que esquecera sua alma em uma esquina. Podia ter esquecido um guarda-chuvas, ou um livro; esqueceu a alma, e não via nada de estranho nisso. Horas depois, em um pub, entre garrafas de uísque e muita fuimaça, ele a reencontrou. Disciplinada, a alma imediatamente se alojou de volta em seu corpo, como um par de sapatos que colocamos de volta em sua caixa.

          Como Arthur Bispo do Rosário, o artista e profeta, Vinicius de Moraes também achava que a alma tinha cores. Ao contrário de Bispo, que via cores fixas na alma de cada pessoa (a minha, por exemplo, ele viu azul), Vinicius pensava que a alma muda de cor segundo as condições emocionais. A traição a torna negra. O sexo, vermelha. O amor, verde. A morte é o momento em que uma alma se torna branca.

          Mas lá vou eu a me perder. Volto ao poema de Gonçalo Tavares e a seu Canto VII e a seu capítulo nono. "Aceitar que a vida é uma sucessão de desaparecimentos _ humanos e materiais _ é esquecer que cada dia tem uma ressonância". Hoje só acreditamos em ressonâncias magnéticas, dessas em que nos enfiam em um tubo e nos afogam em sons. E que depois se convertem (gélido vestígio) em um laudo. Esquecemos dos vestígios humanos, que costumam ser silenciosos. Pegadas. Rastros. Esses restos que deixamos pelo caminho.
          Isso fica e isso gruda. Em mim, hoje, persistem rastros do homem que fui ontem e anteontem. Esse fio secreto de permanência, essas aparição do desaparecido no que aparece, eis enfim o que somos. Dele devemos tratar, como de um cão de guarda. A literatura é a prova mais viva de que disponho para abraçar a tese de Gonçalo. A própria literatura de Gonçalo é a prova mais viva do que ela mesma diz.

          Gonçalo é um grande escritor. Cada dia eu o acho maior. Não porque saiba do que fala, mas porque não sabe do que fala. Esses vestígios existem sim, mas quase nunca os vemos. Não chegamos a tomar posse deles. Não são reações místicas, ou registros espirituais, são coisas humanas. Gonçalo usa as palavras para roçá-los; ele não os vê, quem os vê _ se é que vêem _ são as palavras. Não os vêem: elas os representam. Não foi por acaso que Vinicius se tornou diplomata. 

          Eis onde quero chegar: ou bem o escritor puxa esse fio e repisa essas pegadas, ou não escreve. Pode escrever qualquer coisa _ tudo pode ser escrito. Pode escrever e publicar e consagrar-se. Mas escrever não escreve. Leiam o poema de Gonçalo Tavares e compreenderão isso melhor.

          É um erro não acreditar em aparições. Certo: nós não as vemos _ e, então, a própria palavra, "aparição", come a si mesma, devora-se. Aparições estão por aí, nas entrelinhas. Latejam. Vibram. Sabemos que existem porque se desdobram, porque produzem ondas (ressoam) e se revertem em escrita. Porque os poetas, através da luva fina das palavras, as tocam. É muito pequeno, eu sei, é muito pouco. Mas é tudo _ e é pegar ou largar. 

do blog de Jose Castello 

sábado, 14 de agosto de 2010

O sonho de Calvino e as fotos de Darzacq

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Três sonhos:
1.ºsonho de Calvino


"DO ALTO DE mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores (cadarços). Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável."


O texto acima faz parte da ótima série de livros intitulada "O Bairro" em que o escritor Gonçalo M.Tavares cria personagens com nomes de grandes autores e os coloca em um bairro fictício. Já foram lançados o sr Calvino, sr Brecht, sr.Breton, entre outros. As fotos que ilustram esse post são de autoria do francês Denis Darzacq que, em 2006, após os protestos no subúrbio de Paris fez uma série de fotos de pessoas comuns em queda livre com expressões ordeiras e serenas em seus rostos. Abaixo, o video que mostra os bastidores da produção das fotografias e o endereço do site do fotógrafo.


http://denis.darzacq.revue.com/
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