sábado, 27 de setembro de 2008

cinema, poesia e literatura

Imagens são palavras que nos faltaram. Poesia é a ocupação da palavra pela imagem. Poesia é a ocupação da imagem pelo ser. Manoel de Barros Sem querer, Manoel de Barros, cunhou uma das melhores definições sobre a relação cinema-poesia-literatura. Uma relação interminável, feita de aproximações, rusgas, negações, afastamentos e inevitáveis reconciliações. Desde sua invenção, o cinema vem utilizando textos literários como fonte inspiradora. De uns tempos pra cá o inverso também está acontecendo. Para compreender melhor o entrelaçamento destas duas expressões artísticas talvez seja possível imaginar um processo cíclico em que os filmes buscam nos livros temas e formas de narrar que os livros apanham dos filmes. Isso pode ser percebido em autores que assumem a influência do cinema em seu estilo de escrita, às vezes até assumindo a direção em um set de filmagem. O escritor e cineasta americano Paul Auster é um dos melhores exemplos disso. Ele realizou seu primeiro filme O Mistério de Lulu em 1998. O teor autoral de Auster é notável em qualquer linguagem que exerça, vide a similaridade temática dos livros A Noite do Oráculo e Viagens no Scriptorium com os filmes Mistério de Lulu, Cortina de Fumaça e, mais recentemente, Kimera. O brasileiro João Paulo Cuenca, em seu romance O Dia Mastroianni, cria personagens que tem como meta passar as vinte e quatro horas do dia como o mítico ator do cinema italiano. Amplia ainda mais a influência cinematográfica, ao nomear de Pedro Cassavas o personagem principal; clara referência a um dos grandes diretores do cinema americano: John Cassavetes. Por sinal, no Brasil só é possível encontrar os filmes de Cassavetes em locadoras que tenham importado seus dvds (a Moviola tem), pois ainda não houve lançamento de seus filmes no país. Outra intertextualidade interessante é a influência de Honoré de Balzac sobre a obra de François Truffaut.Ao realizar A Comédia Humana, Balzac compôs um monumental conjunto de histórias em que retrata a França, os franceses e a Europa, entre a Revolução Francesa e a Restauração, inclusive nos seus pormenores econômicos. Sem esconder a admiração pelo autor, Truffaut constrói uma obra similar ao descrever a história de Antoine Doinel e nos dar a possibilidade de ver a evolução, o crescimento e toda a sociedade que circunda a personagem. Desde a criança problemática de Os Incompreendidos até o trintão recém-divorciado de Amor em Fuga, durante vinte anos vemos uma personagem que hipnotiza, enternece e, acima de tudo, marca, em qualquer uma de suas aparições. O fascínio por Balzac é verbalizado por Antoine, notadamente um alter ego de Truffaut. Recentemente houve uma invasão de adaptações cinematográficas de livros de sucesso com relativo êxito de crítica e público. É o caso de O Caçador de Pipas, livro bastante vendido e filme de sucesso. O fenômeno televisivo Sex And The City, tornou-se um best seller e um blockbuster. No Brasil, a adaptação do livro Meu nome não é Johnny ultrapassou a marca do milhão de espectadores, confirmando (e aumentando) o sucesso do livro.Budapeste, último e melhor romance de Chico Buarque está sendo adaptado para o cinema por Walter Carvalho. Assim como Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles teve o aval de José Saramago. Uma exceção é Machado de Assis. O escritor não gozou da sorte de ter adaptações honrosas para seus livros. As versões cinematográficas de Memórias Póstumas de Brás Cubas e, principalmente, Dom Casmurro ficaram muito aquém dos originais. Se a intenção é conhecer Machado, esqueçamos os filmes. O melhor é aproveitar o centenário de morte do autor, já comentado neste blog, e o subseqüente relançamento de sua obra e ir diretamente aos livros. O cineasta russo Andrei Tarkovski costumava dizer que seu maior desejo sempre foi o de conseguir se expressar nos filmes, de dizer tudo com absoluta sinceridade. Mesmo realizando algumas das obras mais intensas do cinema, como Solaris, Sacrifício, Nostalgia e o Espelho, talvez em nenhuma delas ele tenha sido tão sincero e expressivo quanto no livro que escreveu. Esculpir o Tempo é um livro repleto de reflexões acerca da arte, do cinema e da literatura. Em uma pequena passagem o autor decreta: "Há alguns aspectos da vida humana que só podem ser reproduzidos fielmente pela poesia." Manoel de Barros concorda.

Um comentário:

Vincent Vega disse...

Cassavetes é O CARA!!
valeu

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